Queridos irmãos religiosos e leigos da Família Pavoniana:

Escrevo esta carta em pleno tempo litúrgico da Quaresma, que nos prepara para a Páscoa. Esse é um tempo de graça, em que toda a comunidade cristã é chamada a realizar uma viagem de conversão, uma viagem ao nosso interior para nos descobrirmos frágeis e descobrimos nossa necessidade de voltar a Deus, a Jesus Cristo e ao Evangelho e, a partir deles, aos irmãos mais pobres e necessitados, no nosso caso, aos adolescentes e jovens que Deus vai colocando em nosso caminho. É necessário ir ao deserto como lugar de solidão, de prova e de encontro. De solidão, porque nos permite encontrar conosco mesmos, com nossa “individualidade”, sem máscaras, sem mentiras ou meias-verdades. No deserto, nos sentimos nus, frágeis e necessitados, podemos contemplar nossas misérias e nosso nada. De prova, porque, ali, descobrimos que sozinhos podemos muito pouco; descobrimosque a vida é difícil e para enfrentá-la não valem os paliativos, as aparências e nem as estratégias, que vamos tecendo na vida e que não nos levam à verdade, à liberdade e, definitivamente, à felicidade. Descobrimos que não vale nem aparentar, nem programar e nem planejar a vida por nós mesmos. De encontro, porque, ali, descobrimos que o fundamental é o encontro “tu a tu” com Deus, como a fontede energia que precisamos para continuar vivendo nossa vida com sentido, a partir do amor e da entrega. Devemos recordar sempre que a batalha mais importante que temos na vida é conosco mesmos. Não podemos enganar a nós mesmos e se o fazemos é porque estamos doentes.

A)    A Quaresma, um caminho pessoal.

O caminho pessoal não dispensa o caminho comunitário. Acredito que o favorece e lhe dá consistência.

1. Viagem ao nosso interior. Convido todos a entrar em nós mesmos. Não tenhamos medo de nos encontramos a sós, conosco mesmos. Deixemos de lado as distrações e diminuamos o tempo dedicado à TV, ao computador, às redes sociais... e aumentem os os momentos de oração pessoal. “Segundo o ensinamento do  Fundador, uma forma essencial de oração é, para nós, a oração men­tal ... que abre e ilumina a mente, purifica e recompõe o coração, enfervora  e reforça a vontade.” (RV 169). Aumentemos a leitura e a meditação da Palavra de Deus. “Na assídua meditação, na Leitura Orante e na familiaridade com os livros sagrados, nós aprendemos o sublime conhecimento de Cristo, alimentamos nossa oração, nos tornamos anunciadores e testemunhas da Palavra.” (RV 156). Aumentemos a leitura espiritual. Temos à nossa disposição tantos subsídios, tantos livros. Os livros de nossa Editora Âncora chegam a muitas de nossas comunidades e podem nos ajudar nesse sentido. Aumentemos nossa aproximação ao sacramento da reconciliação para nos sentirmos perdoados e amados por Deus.

2.     Viagem ao coração de Deus. Converter-se sempre quer dizer dirigir nossos passos a Deus, voltar à casa do Pai, onde não se é servo, mas filho. Ponhamos Deus no centro de nosso coração, de nossos interesses e de nossa vida. Passemos de profissionais de Deus ao sentirmos filhos seus, para experimentar que ele nos espera, nos abraça, nos faz homens e mulheres novos e nos restabelece na dignidade perdida. Experimentemos e gozemos da proximidade, da predileção de Deus, que nos ama e nos prefere, apesar de nós mesmos. Experimentemos como Deus é fiel e nos ama incondicionalmente,  apesar de nossas infidelidades.

3.     Viagem à fraternidade. Não é possível converter-se a Deus sem se converter aos irmãos. “Se alguém diz: ‘eu amo a Deus’, e no entanto, odeias eu irmão, é um mentiroso; pois, quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus a quem não vê”(1 Jo 4, 20). O que se pede a nós, cristãos, e mais ainda aos religiosos, em tempos tão agitados por terrorismo, guerras, divisões e polarização, é sermos construtores de pontes e não de muros. Em nossas  comunidades e núcleos da Família Pavoniana, somos chamados a reconstruir a fraternidade, cada dia. Papa Leão, em sua mensagem para a Quaresma desse ano, nos lembra de duas ferramentas importantes para fazer isso:

   - Escuta: “Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra por meio da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”. O que o papa diz em referência à Palavra de Deus é extensivo aos irmãos e irmãs, pois Deus está neles.

              - Jejum: “Por isso, gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta          

          e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o

         nosso próximo. Comecemos por desarmara linguagem, renunciando às palavras mordazes,

         ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias.  

         Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na

         família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos

        meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão        

        lugar a palavras de esperança e paz.

4.     Viagem à solidariedade com nossos irmãos. Papa Leão, citando Dilexit enos diz: “A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente nossa vida, nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos e, especialmente, a Igreja”.

Se nesse tempo nos privamos de algo como gesto comunitário ou familiar, podemos destinar seu valor em dinheiro a nossas missões, na África o Ásia, especialmente na Nigéria, onde estamos começando uma presença que necessita de apoio econômico.

 

B)    A Quaresma, em caminho comunitario

Devemos fazer tudo isso juntos, como Família Pavoniana. Papa Leão, na mensagem da Quaresma, nos diz: “Do mesmo modo, as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, do clamor dos pobres e da terra, tornem-se forma de vida comum; e o jejum, por sua vez,  signifique um verdadeiro arrependimento. Neste contexto, a conversão diz respeito não só à consciência do indivíduo, mas também ao estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e de reconhecer o que realmente orienta o desejo, tanto nas nossas comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação”.

Aproveitemos esse tempo para fazer nossa revisão de vida fraterna. Tenhamos nossos encontros comunitários e, à luz da Palavra de Deus, de nossa Regra de Vida, do projeto comunitário e da missão que a comunidade realiza; partilhemos nosso caminho de fé, nosso caminho vocacional e a qualidade de nossa vida fraterna e da missão. Façamos isso, a partir da escuta, do diálogo, não com a finalidade de censurarreciprocamente nossas atitudes, mas com a finalidade de melhorar nossa vida e missão, de modo que seja uma ajuda em âmbito pessoal e comunitário. Façamos isso com o desejo de nos ajudarmos mutuamente a nos converter ao Senhor, converter nossa vocação e nossa missão. Que esses encontros sirvam para nos ajudarmos a ser mais humanos, mais cristãos e melhores religiosos.

AGENDADO MÊS

2-26: Visitarei as comunidades do Brasil;

14-15-16: Assembleia da Família Pavoniana Italiana, em Lonigo;

21: Encontro de educadores da Província Espanhola, em Vicálvaro;

 

Ponho o caminho de nossa Família sob a proteção da Virgem Imaculada, nossa querida Mãe e de nosso Santo fundador, Ludovico Pavoni. Bom caminho de Quaresma para todos.

Um abraço fraterno e sempre agradecido.

 

Ricardo Pinilla Collantes

Tradate, 28 de fevereirode 2026

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